pequeno repente

 Vai começar a contagem

preparem-se para o trivial

o dia mais aguardado do ano

o Julgamento Final


Pode ser que você não saiba

ou não tenha prestado atenção

mas o dia de hoje será demorado

abafado e cheio de emoção


A cantiga de cordel mais bonita 

não te preparou para o que vou contar

que dentre todos os homens do mundo

apenas eu vou me salvar


E agora você vai rir

rir até chorar

porque parece piada

o mais lascado ganhar


Mas é verdade

Eu não tenho porquê mentir

Se assim fosse

Eu nem estaria mais aqui


Talvez você encontre uma mensagem oculta

no meio das palavras cultas

que te faça entender sem censura

que eu não caibo mais na loucura


tão perto

 

Esse olhar
que conheço junto
ao lábio tão perto
na premissa

de iniciar já e

alguma coisa

quando na verdade

deve-se ler aquilo

como a altura 

ideal para o conforto

e o corpo

que não pede

nem almeja

mas eu vejo

e desejo

que o mundo

empurre direto

para o meu colo.





Imagem: vândalas mascaradas de Sophia Pinheiro

setembro

qualquer ínfimo acontecimento

que me acomete neste setembro

inflige-me dor infinda


sinto meu corpo em meio às chamas, ardendo,

sorrindo em desespero e correndo

sem nunca saber onde quer chegar 


parece-me que o fim

é mesmo assim

partimos sem destino

com a certeza de nunca mais voltar


(há de ser bom dormir um pouco, penso

enquanto começo a chorar)

amor com carteira assinada

Você perguntará se estou bem

se é culpa dos astros

se já almocei

se consegui tirar o dinheiro do seguro

se pode vir mais tarde

se faremos algo

se não enlouqueci de vez

enquanto penduro estrelas feitas com cartolina

no varal de casa mesmo com previsão

de chuva e de caos para

esta cabeça maldita que não

para por coisa qualquer no mundo mas tem

um homem dentro de mim que 

não desiste. 


Pintura de Nina Pandolfo


30 anos

Passado o recado ao meu eu de 30 anos

quero dizer ainda

que esperava mais de mim

e que by having no fear 

eu perdi muito mais do que ganhei. 


Pode ser que no futuro

tudo isto faça algum sentido

mas agora o que eu sinto

não é nem de perto 

aquilo que consideramos agradável. 


Ainda não sei dizer qual o nome 

do meu maior medo

porque tenho enfrentado 

tudo e todos

com uma intensidade incalculável.


Finalmente acho que cresci.



RESPIRAR

 Aprender a sentir moderadamente tudo que o mundo nos propõe é tarefa muito difícil, melhor deixar para estudiosos que desvendam datas do calendário Maia e viver sem digerir bem as coisas. Compreender o momento de se retirar também é sabedoria, afinal, jamais saberemos se uma palavra mal dita será interpretada com carinho ou com azar. Eu não tenho muitas pretensões.

Desde que abandonei parte da carreira, vivo contemplando a natureza e escrevendo poesia por onde passo. Confesso que nem sempre lido da melhor forma com os problemas da vida, mas tem um gato ao meu lado que me ensina a ignorar as dores e sair por cima de qualquer situação. Dostoiévski me fez mais forte, acho que ele sabe disso e se vangloria. É claro que ainda tenho medo. Vivendo no Brasil de 2023, que mal começou a respirar esperança, quem não teria? Medo não é tudo. 

Agora quero reaprender e recomeçar de modo mais bonito. Da forma correta. Como deveria ter sido desde o início, sem as castrações malucas que a vida freudiana me impôs e eu aceitei porque achei que me cabia. Quero respirar com a delicadeza que uma flor que está finalmente dando os seus primeiros frutos, pois é exatamente assim que me sinto, como se pela primeira vez na vida eu estivesse enfim florescendo. 




verdadeiro amor

eu preciso

aprender a amar o meu corpo

e o meu rosto

e todas as partes de mim

que me fazem ser ainda

tão desonesto com o mundo

(questão geral que se sobrepõe a todas as outras) 


amar

é um verbo ainda tão dolorido

verdadeiramente obscuro

distante de mim como ouro bruto

joia rara que em nada se parece ao fim

enfim chego ao fim do dilema

(amar o próximo nunca foi problema,

amar a mim... que pena!)

posse

nem parece que um dia você me olhou

quando eu era mais jovem

e a vida era mais fácil

e tudo tinha sabor adocicado


é tão difícil distinguir as coisas agora

que não perco tempo esperando uma salvação

e sigo à risca as recomendações médicas

porque você diz que iria me ver

e eu sei o que isso significa


o seu coração nunca deixou de me pertencer

mesmo que eu tenha afundado o meu corpo

no lamaçal mais profundo da vida

eu ainda detenho esse poder

de te ter

venda casada

 carece o tempo maturar certas coisas

apesar de o tempo mesmo

não ser suficiente para lidar com tudo

por exemplo as mariposas

voam sem direção alguma

e às vezes batem no vidro do carro em movimento

e assistimos a sua morte sem espanto

e limpamos o local

e é tudo tão trivial

que um poema 

significa nada

perto da complexidade de coisas que é a vida



Os cabelos, de Nina Pandolfo (02 de dezembro de 2012)


amar

o meu rosto na TV 

não diz absolutamente nada 

a vida precisa pegar no tranco

como um carro velho

enferrujado no canto da garagem 


se eu ainda tivesse a habilidade de sonhar

poderia ficar mais tempo

perto do mar 


agora já não faz sentido

viver atento ao mundo é descaso comigo

antes de tudo é preciso

eu repito: é preciso



(Na mansidão dos teus olhos, Nina Pandolfo)


santo casamenteiro

Faço cálculos inexatos do nada. Persevero em minha ausência de fé... a TV já não me diz muita coisa porque tudo que eu preciso saber está dentro dos livros e da cabeça dos mais velhos. 

Se me pergunto a razão de tanto can$aço vejo as luzes da cidade grande ofuscarem o brilho dos meus olhos enquanto sonho em voltar para a roça. Suponho que viver seja manter sempre viva esta sensação de desconforto. Muitos podem dizer que não me encaixo nos lugares e na sociedade pela cor da minha pele ou porque a minha sexualidade fala antes de mim, mas a verdade é que a responsabilidade pela exclusão social não é minha.

Vocês não conseguem enxergar? Se falo em função social da propriedade estou automaticamente renunciando a minha autoridade acadêmica sobre o direito para falar de acordo com o que condiz o meu pensamento. As amarras da Academia já não me prendem nem um pouco. 

Talvez seja necessário um pouco mais de tempo até entendermos que nesta vida tudo passa muito depressa. Quando me dou conta de mim já não sou mais jovem, a energia se esvaiu e considero todas as minhas decisões equivocadas até então.

Se sou feliz? Não ousaria me definir de tal maneira. 

Estou vivo, isso é o que importa. 












Obra: Fragmentação, de Renato Rodyner (2020). 

breathing

todos os dias
antes de fazer minha oração ao Universo
peço conselhos imaginários
ao meu amigo Neruda, Pablo.

converso também com Cida
pelas redes sociais
como se tivéssemos intimidade
porque apesar da diferença de idade
somos iguais

agora já ñ peço favores
ñ pago dívidas
ñ defendo inimigos
ñ amo
e não sou amado.

todos os dias
durmo com dificuldade
o peso das ideias afundam o travesseiro
e eu desisto de tudo. 









Pintura: Amanhã para sempre, Margaret Keane (1984).

em termos de amor e ódio

na quarta-feira, quando me dei conta do caos que a vida havia se tornado, já não tinha muito a se fazer. essa madrugada, por exemplo, tomei pelo menos quatro calmantes para conseguir dormir em paz e mesmo assim o sono veio intermitente.

suponho que viver seja mesmo doloroso. já não me importa tanto se me casarei, terei filhos, viverei tempo suficiente para observar as mudanças climáticas, isso não me interessa nenhum pouco. mas agora questões urgentes chegam a mim com mais força. 

eu quero morrer.

quero que todos ao redor morram também, mas não tenho capacidade técnica para causar quimicamente um evento de extinção humana global, algo em larga escala mesmo. também não sou um assassino que pega uma metralhadora e invade uma igreja cheio de fanáticos. 

até voltar definitivamente ao trabalho, à pesquisa acadêmica, à sala de aula, à delegacia, sei que ficarei preso a este passado terrível que me acorrenta em minha cidade natal. mas é o que me faz viver. eu quero os meus pais perto de mim, a minha irmã indagando ao lado, as minha sobrinhas brincando... não quero ficar sozinho.

e não quero ninguém.

o meu eu morreu

 coisa chata essa de podar as circunstâncias. estou velho demais. 

o tempo passou tão rápido quando um sopro e eu não sei mais o que fazer com o meu corpo, porque sinto que estou morto, mas a carcaça continua caminhando por aí e eu não quero mais carregar este peso. 

espero que o futuro me dê a coragem de alejandra pizarnik. estou pronto. não tenho mais medo e não tenho coisa alguma que me prenda a este plano. 

quero viver a circunstância de minha morte em sua mais bela plenitude. 

até os milagres se foram

faz algum tempo que vi a sombra do seu rosto

ela me dizia:

caminhe devagar para não cair

e então eu comecei a dar passos cada vez menores

até desistir de andar.


quando olho para trás

penso que se eu pudesse te abraçar agora

nem que fosse por um mísero instante

eu voltaria a ter desejo de viver.


como os meus braços estão vazios

eu só sinto vontade de morrer

e as metáforas não me incomodam mais.

deve haver algum lugar no mundo

para gente funesta como eu.


as descobertas virão.

eu espero

eu preciso de um milagre

i'm so mad i'm getting older

trago cansaço aos montes

e das mais variadas coisas.

sonhar

quando se é pequeno

dá uma sensação gostosa.

a gente nunca se esquece de

viver,

buscar sentido

- o sabor adocicado da juventude

também me passou pelos dedos.


não é que eu não note o dia chegar

mas você já olhou para o céu hoje?

faz tempo que habito lá

no alto

entre os passarinhos e os aviões

minha alma voa

um texto sem revisão porque já estou tão cansado

em noites como as de hoje penso que devíamos organizar os papéis, limpar os vidros do carro e, de fato, pegarmos estrada. não tenho coragem. falta em mim a virilidade dos 17 anos (é uma pena que o número tenha se tornado um estorvo para o país, porque foi a idade na qual o meu mundo virou de cabeça para baixo- o que, ao final das contas, faz muito sentido).

são em noites como as de hoje que tenho maior dificuldade para dormir. as lembranças não ficam escassas e eu sei exatamente qual é o cheiro e o sabor do passado, mas, veja, algo em mim me impede de voltar a este lugar escuro e ao mesmo tempo florido que guardo em meu peito. 

escrevo porque sei que o meu espaço no mundo é tão pequeno que não faz diferença se decido usar a palavra sigaho e não cigarro. fumar já perdi o hábito. a bebida também está ausente da minha vida há alguns meses. você deve estar rindo e sem entender como consegui sobreviver meses sem as drogas. eu, de cá, estou rindo porque me rendi à droga do açúcar e o meu corpo sentiu a diferença. 

não sei expressar como me sinto em relação a tudo que está acontecendo. 

não me ensinaram a sentir o que estou sentindo. é tudo tão vago quando vejo a partir dos meus olhos. 

gotas

 você não me olha

quero dizer,

você até pode me olhar, mas não me vê.

sabe quando nos ligamos

quando ouvimos as nossas vozes

e entendemos que tudo mudou

e ficamos amigos

eu sei que isso não é bom para mim

sei que estou vulnerável ao sentimento

tem algo estranho dentro do meu peito

como um sopro

uma sensação de continuidade

como se a linha do tempo da minha vida

apenas fizesse sentido 

porque você está presente nela


acho que não estou sendo claro

tenho medo que os meus textos sejam prolixos-

a minha mente não respeita nada


eu quero espaço

respeito a distância

recuso-me a chamá-lo mais uma vez

o vento bate forte na janela porque é junho

estamos no mês do meu nome

não quero pensar nisso


você não me vê.

como isso é possível?

depois do almoço trabalharei com menos temor

a indignação palpitando sobre os olhos

não quero esperar ser visto

quero ver também

fatos importantes sobre mim

 Não tenho o objetivo de me tornar viral. Ser um sucesso nas redes sociais nem de longe me parece o meio ideal para obter um resultado positivo acerca da minha escrita. Nada que remeta a i.s.s.o me fará feliz. Gosto da sensação de estranheza, com a qual lido há muito, mas tenho me aproveitado dos espaços virtuais para desabafos impertinentes. Trabalhos sérios, sérios mesmo, são publicados em livros e coletâneas. Por aqui fica a efemeridade. Vejam que pela data das postagens não tenho medo ou vergonha alguma de quem eu fui, tampouco de quem virei a ser. O que estou sendo é mistério. Até. 

acho que apenas estamos

tenho um poema que dura 5 páginas

acho que sou rebelde

outro texto meu

ocupa 25 páginas no programa do computador

é também um poema 

acho que a maioria das pessoas se cansaria

assim como acredito

quase piamente

que as pessoas pararam de se importar com a literatura

desde que a TV e a internet

tomaram conta de tudo

e a poesia parece ser banal

ainda que dentro de estrofes como estas

que agora faço

exista um universo inteiro de 

pássaros e flores e ar puro e alegria e pedido de socorro

ninguém percebeu ainda

que o mundo não é mais o mesmo

porque nós desfizemos o mundo como ele era


nunca saberemos 

se estamos melhores ou piores