terça-feira, 15 de agosto de 2017

Julgamento final

É cediço que a falha humana se alimenta da vaidade
 que o fracasso é uma fantasia
 que o tesão é marionete do intelecto
 que a raiva é um pedaço de si mesmo
 que mil homens não seriam capazes de levantar o meu carro do asfalto enquanto dirijo porque eu sempre uso o freio de mão
 que os meus olhos não lacrimejam com facilidade
 que eu sempre amo de forma errada
 que a admiração é frágil como papel
 que a dor se cura com amor
E que eu sempre peço perdão porque magoo aqueles que me tentam ajudar

A grande (e dolorosa) verdade, portanto, é:
a minha carne fétida e a minha alma putrefata não são passíveis de salvação.
Condenado ao pecado eu estremeço, mas aceito o fado e digo adeus.

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sábado, 27 de maio de 2017

O Primeiro Adeus

Eu sei que vez ou outra,
numa noite qualquer de desânimo-
como tem sido toda a minha vida,
você busca nesta página o conforto.

Pois bem.
É chegado o momento.
Com as vestes em mãos eu digo:
serei o primeiro
do último a abandonar essa história
que, convenhamos, repete-se.

Há ainda o sobressalto do desatino.
Eu não rio e, em seu lugar, não riria
da desgraça gigantesca em meu caminho
que foi encontrar você.

Que amanhã seja o meu dia e não a sua litania (nunca mais!).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O terno do desejo nunca sai de moda

Se a tua mente te trouxe aqui
Por imposição de vontade analítica
Então é cumprida a nossa sina
E suprida a tua fantasia
Que, eu sei, é também a minha

Valha-me, mente maldita!
Eu instigo, instigo, digo e nunca digo,
mas nunca sou o primeiro.

Resta-nos a lição:
Sala ou banheiro?

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Das dores e do estremecimento

Eu não me estremeço, nem choro, nem temo nada do que vem. Os golpes que hoje me atingem não deixam mais que dissabores, tamanho o meu acomodamento com as feridas já cicatrizadas. Eles sabem que me ferem. Eles buscam o meu sofrimento tanto quanto eu busco a minha liberdade, que ainda hoje parece tão distante. Soa-me gutural o som da via expressa e eu me desloco pela vida como um felino. O meu quarto, mesmo para um menino frígido, é encantador. O mundo e a sua vastidão são assustadores e me destroem. Mas eu não fujo, nem me amedronto, nem me espanto.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Sul está em Queda

Busco em mim um remédio para a solidão
Pois persiste o teu cheiro
E o gosto do teu beijo
E tudo ao redor com teu movimento

Como não bastasse o som da tua voz
E o verde dos teus olhos cintilantes
Nada me parece mais infame
Que os registros da minha memória

Por isso eu peço ao destino,
deuses, carma, ou o que seja:
alivia-me o fardo.
Deixe-me esquecer o passado,
porque ele existe e insiste,
e eu nunca mais amei ninguém.

Se não me faz este favor o imaginário,
peço a ti mesmo, amor amado,
despreza-me mais, pois eu nunca te esqueci.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Ave Negra

Entrou pela varanda,
percorreu a sala e se infiltrou na cozinha.
Não permaneceu.
Eu presenciei o fato, pasmado,
mas a sua performance não se comprometeu.

Rápida e fugaz,
veio e se foi,
voltou pela varanda.

Fez o que tinha que ser feito e se foi.
Voou pela varanda,
onze andares ou mais,
segura se si e eu de mim.

Saiu pela varanda a ave negra.
(e eu pensei que fosse uma borboleta)

domingo, 2 de agosto de 2015

Chasing

Envenenado pelo tempo
Estou
E fico
Estarrecido com a vida
O que me resta dos dias?
A resposta é vazia:
Nada

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