sábado, 30 de outubro de 2010

Segue a noite.


A palavra é a rotina do sentimento.
Sou pedra bruta, pouco lapidada,
que adianta os pés sobre o caminhar.
Tenho pressa, ponto de partida
e sei onde quero chegar.
Vivo o dia, pois não posso esperar a noite,
para fazer valer a minha vida.
A cada lágrima, uma despedida.
Cantei o bom canto
e, mais que nunca, soube cantar.
Ausentei-me da vida um tanto,
tenho muito pranto, chances a tentar.
A noite é o silêncio da alma.
Sou primeira pessoa repentina e singular,
sou diversidade múltipla.
O tempo me ensinou a respirar.

domingo, 24 de outubro de 2010

Invencibilidade...



A liberdade é um dom insondável. Até mesmo o vento que sopra todas as manhãs de sol escondido é livre, a vida é livre. Prisão é chorar por si próprio. Acredito fielmente no poder da invencibilidade. Sei que vai parecer estranho, mas nós somos invencíveis a tudo: temos poder até mesmo sobre a morte. A verdade é que não sou capaz de medir minha própria força, ainda não atingi o ápice da minha real maturidade. Finjo isso tudo. Não sou um poeta apaixonado e muito menos um louco fanático pela vida em busca de um papel chamado dinheiro. Sou isso e mais um pouco. Sou todo tipo de esquisitice que lhe parece oportuno. Ah, sou luxúria também. Sou água, porta, madeira bruta, festa interrompida, amor que não acaba. Eu sou ouro, sou prata. Estou estranhamente confuso sobre a minha verdadeira face. Ou será que a minha face está confusa sobre meu verdadeiro eu? Já não sei. Sei somente que respiro e que, enquanto isso acontecer, estarei imerso num mundo de confusões. E isso não é tão complicado assim, somos imunes ao silêncio. E mais que isso, sou complô de uma metáfora individual e restrita. Eu sou o pó entorpecente, sou a matéria viva. Eu sou da paz, sou da vida!  

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Último número.


A natureza finda.
E eu peço a Deus que me ouça
para que eu não seja baralho morto.
Já nem me importo em lavar a louça.
O fogo queima as folhas,
vão-se os números, eles ficam.
A mente que é cheia implora
e pede que as letras não mintam.
Toda cor um dia se apaga.
E eu que já descolori minha vida há tempos
nem me importo com a escuridão.
Muito mais vale sentir o vento.
A correnteza leva os destroços,
vidas que falharam, eles vão.
Quanta gente sem relógio perdeu a hora do trem
ou pegaram o último vagão?

Sorria, meu bem.
Não vejo dores nessa imensidão.

domingo, 17 de outubro de 2010

Brando nocaute.


É tão bom ver que as coisas estão mudando, que as pessoas estão evoluindo e que o mundo a nossa volta tem uma extensão gigante, embora pequena. Ainda assim, há uma complicação envolvendo o futuro. Eu poderia ser menos emotivo, não fosse a minha mania interativa de querer ser diferente e mais forte do que realmente sou. A proteção que apresento frente à minha face pode ser destruída, assim como o poderio imperial sobre mim também. Não há nada orgânico que me proteja. Há o meu eu que é meu escudo. Sou propício a desabamentos, mas não os reconheço como meus, pois não sou desestabilizado. Ao contrário, sou forte. E tenho cada vez mais força quando ouço a voz de quem me causa saudades (ainda não vividas), quando seguro firmemente a mão de quem me apóia e quando sinto as dores de quem luta por mim. Reconheço cada ferida como minha. Cada marca, cicatriz e sangramento, cada lágrima e grito desesperado de dor também é meu. Eu sou parte de quem me cerca. Eles são parte de mim. Somos todos um só, muito embora eu, sozinho, não seja ninguém. Em pouco tempo, não terei mais guerreiros ao meu lado. Estarei perdido numa batalha que pertence a mim e que somente eu poderei lutar. E aquela força que me dava sustento, somente pode me guiar agora.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

[+] Músicas.

Muito bem, após tantos posts, resolvi fazer uma lista das músicas que costumam me inspirar. Ouço bastante e costumo escrever ao som de uma boa música. Vou deixar uma pequena listinha, quem estiver interessado em se inspirar, escutem o que lhes conto.
1 - Como nossos pais (Belchior) - Elis Regina.
2 - Mama's song - Carrie Underwood.
3 - Todo carnaval tem seu fim - Los Hermanos.
4 - Pais e filhos - Legião Urbana.
5 - Minha herança, uma flor - Vanessa da Mata.
6 - Terra de gigantes - Engenheiros do Hawaii.
Pronto! Quem gosta de boa música e boa letra vai gostar dessas seis. É só um pedaço do pequeno gosto musical que tenho... Ah, para fazer o download da música, basta clicar no nome dela. Inspirem-se!

DEZ.


Há aqui muito corpo e pouca alma. Valentes guerreiros que não se tocam, mas desatinam a lutar. Há sangue no colo do meu povo. Existem foices prontas para causar dor e, ironicamente, flores para espalhar amor. Fala-se em guerra, mas não percebem que vivem uma apenas com o silêncio da exclusão. Há muito mais coisa além do coração. Há muito mais gente simples, serena e completa. Conheço muita gente honesta e sei daqueles que não se deve confiar. A carne jovem está revigorada, sedenta por uma nova batalha, uma ideologia a defender. Não sou fruto desse mundo, sou filho de uma nova arte que ainda vai acontecer, mas não esqueço a minha origem. Estufo meu peito largo para arfar amor a quem precisa. Sou parte de uma nova cria projetada para amar. E, com escudo em mãos, luto e sangro por aqueles que me apresentaram o respirar.

O troço.

Há um troço logo ali,
um troço de não sei de quê.
Nem sei se é mesmo troço,
vai lá ver você.
Criei algo pro troço,
algo de não sei de quê.
Nem sei o que esse algo é,
vem aqui ver você.
Beijei carinhosamente o troço
e lhe cobri de algo.
Descobri que esse algo é todo amor que posso
e que esse troço é você.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Execução e aproximação.



Não confio totalmente nas pessoas, elas costumam mentir. Prefiro me manter isolado aos mundos a arfar e suspirar decepções... Tenho muito disso em mim. Possuo a mania da execução e aproximação. Executo destrutivamente as mentiras, as raivas e as hipocrisias que me cercam, ao mesmo tempo em que aproximo de mim tudo aquilo que me faz bem (e não são tantas coisas assim). Fugir da escuridão é uma maneira que encontro para não permanecer perdido. Eu também costumo me perder. Geralmente isso acontece quando juro de pés amarrados que me encontrei. A gente nunca se encontra. A vida é um jogo de perdas e desencontros. É inútil insistir numa busca que jamais irá findar. Demorei a entender que persistência não é o mesmo que burrice e que a confusão entre os dois é inevitável a uma mente sonhadora. Sonhar é tão mais fácil que realizar... A vida também é sonhar.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

[+] Conto: A loucura dos loucos que não enlouqueceram.

E eles começaram a sondar o próprio pé em busca de algum defeito, já que a perfeição aparentava ter lhes alcançado. Nenhuma unha encravada, nenhuma frieira, nenhum dedo torto. Chato! Era impossível encontrar alguma imperfeição em pés tão bem cuidados e desenhados como aqueles.
Sentaram os três na varanda.
Ficaram olhando-se fixamente como bobões que acabam de se conhecer, mesmo tendo anos de vivência e descoberto a perfeição somente agora. Demoraram tanto para perceber que eles eram perfeitos, que ainda estavam desacreditados disso. Sorriram um para o outro e tiveram aprovação unânime: era chegada a hora de contar isso a alguém, afinal, perfeição não pode ser guardada. Tem que ser exibida.
O primeiro, romântico, dirigiu-se a sala de recepção e piscou o olho para a moça que atendia telefonemas. Essa nem o notou. Ele foi insistente e piscou mais uma vez. Vendo que a mulher não lhe dava atenção, resolveu encontrar outra maneira para se mostrar visível: começou a correr na sala. Varreu os quatro cantos do cômodo de espera com seus pés agoniados.
- O que está fazendo? – Indagou a secretária.
O homem não respondeu, mas pulou de alegria interiormente. Finalmente conseguira chamar a atenção da mulher. Ela olhara para ele! Então a oportunidade foi bem aproveitada e ele encostou-se à bancada, olhando fixamente para ela. Agora sim piscou e foi visto. Os outros dois companheiros o acompanhavam de longe, apenas observando as atitudes do amigo.
- Tenho que lhe contar uma coisa.
- Então conte. – A mulher sorriu enquanto brincava com a caneta, menosprezando os ditos do pobre coitado.
- Quero lhe dizer que sou perfeito. – Sorriu abobalhado. – E posso casar com você agora. E juro, - ele cruzou os dedos e os beijou na frente da moça – juro que só vou me casar com você! Não caso com mais ninguém...
- Meu querido...
O rapaz reluzia e transparecia toda a felicidade que sentia somente por ser chamado de ‘meu querido’. Era um mérito enorme, mas ele queria mais. Ele podia ter mais: era perfeito. Sorriu novamente, pronto para receber uma resposta.
- Não posso me casar com você. – Ela segurou a mão do homem sobre a mesinha de recepção. – Já sou noiva, não se lembra?
Escuridão.
Agora nada reluzia e os sentimentos do homem eram os piores. Ele queria gritar, chorar e esbofetear a secretária. Ela não podia se casar com outra pessoa. Ela era dele e somente dele. Pensou mais um pouco. Talvez ela estivesse noiva forçadamente e talvez nem amasse o cara que havia lhe posto um anel no dedo. Era isso! Ela jamais recusaria um pedido de casamento do homem perfeito.
Certo disso, ele começou a gritar. Olhava incansavelmente para a mulher, suplicando que se casasse com ele, implorando um pouco de reciprocidade. Pulou sobre a mesinha, bateu no chão, bagunçou os cabelos... Ela aproveitara aquilo para continuar trabalhando, pois estava conversando ao telefone. E ele continuava gritando poemas de amor. Seus amigos já não o acompanhavam.
De repente, uma luz branca. Uma dor aguda no braço, algum líquido entrava em suas veias, ele podia sentir a pulsação mais forte. Era tranquilizante e ao mesmo tempo cansativo. Ele estava ficando sonolento demais. Não tinha mais forças, ainda assim, berrava consigo mesmo que já não precisava que ninguém lhe carregasse, queria andar sozinho. Tanto quis que fechou os olhos, mas os fechou sorrindo. Pois além da perfeição, ele havia encontrado o amor.

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