terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sem destinatário.


A cor d’antes, que agora escureceu,
pertence a muito mais gente que gosta.
Há muito mais eu.
O brilho nítido que tudo reluzia,
estranhamente que se apaga e não volta.
Há aqui uma noite vazia.
E voltam as flores mortas da campina,
o cheiro fúnebre da dor irrisória.
Há vida na esquina.
Muito mais alma e menos coração,
compulsivamente se isola, repetitivamente.
Há dor na solidão.
Intrigante amor próprio que não cede,
que não deixa recheio ou carniça equivalente.
Já não mais pede.
Há desenvoltura terna no limiar da esperança
e a vida desola carnificinas febris.
E não sei se sou criança, se sou matança.
Há um breu noturno em meu ser,
um temor inteligível, um vapor asqueroso, enfim.
E nada disso me impede de viver.
Que se rompam as margens da tradição
e brote novamente a ideologia viva do sentimento.

                Sem desprezo, virtuosamente,
                                            Coração.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mão de mãe.


Estou à mercê das circunstâncias e não enxergo maneira de me avigorar. Enquanto ainda tenho base de sustento, me faço firme, mas desconheço outra forma de abastecimento que não sejam amores. Qualquer outra fonte de energia é transitória. Sinto que estou cada vez mais longe daqueles que verdadeiramente amo e por isso, somente por isso, me faço mais presente. Não quero perdê-los, não enquanto ainda posso tê-los. Ah, que saudades eu sinto do tempo em que tudo estava perto.  Quanta falta faz não ter preocupações... Que me importa ter futuro, se não posso viver o presente? Por favor, mãe, me mantenha longe de banalidades e hipocrisias, eu não suportaria comodismos estando tão farto de preocupações. Mãe, eu preciso dos seus conselhos. Não largue a minha mão agora, logo agora, que começo a dar meus primeiros passos. E quando eu começar a andar sozinho não se preocupe com as minhas quedas, aprendi com você a me levantar sempre e cada vez mais forte. Você me deu tudo que eu precisava, então não se preocupe, eu vou saber lidar com as muralhas que me esperam. E terei força suficiente para derrubá-las da maneira correta, da maneira digna que me ensinou.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Sei que...



Muitas vezes enfrento o que não devo por não ter o que dever. É estranho, mas existem coisas que exigem de você muito mais que um pouco de atenção: tomam-lhe o corpo e a alma por inteiro. E isso não quer dizer que seja uma atividade ruim. Difícil é desejar a vitória sem ter dedicado seus dias à luta. Sei que tenho uma imensa facilidade para falar de amor, mas não possuo o mesmo dom para vivê-lo. Ou possuo e não sei identificá-lo. Não sei. Sei que consigo administrar meus sentimentos sem interferir a realidade que me cerca e que, incrivelmente, tem o poder de influenciar a vida alheia. Não que eu seja válido, mas o amor é uma linguagem universal. Um beijo puxa outro, um abraço pede outro e a sequência se adorna. É isso que me entristece. E não sei se sonho ou se quero continuar. Sei que vou moldando sonhos e realidade aos poucos. Apressado, mas aos poucos, como se nunca fossem acabar. Como se houvesse algum tipo de estratégia eficiente para dominar essa loucura absurda que chamamos vida.

sábado, 11 de setembro de 2010

[+] Conto: Vida ganha, vida perdida.

O doutorzinho sentou-se nos bancos de trás, rezando para não ser visto. Roeu um pouco as unhas, mexeu no cabelo algumas vezes e descansou. Há muito tempo não se sentava. Olhou discretamente para as mulheres no palco: todas incansáveis. Ele as desejaria, não estivesse fadigado demais para um homem só. O homem gordo atravessara as cadeiras em passos rápidos, pisoteando o chão com a ânsia de machucá-lo. Sentou ao lado do doutor.
- Trouxe o dinheiro?
- O que anda fazendo com essa merda de vida? – O doutor roçou o bolso da calça social até encontrar algumas notas. – Já é a segunda vez que me procura essa semana.
- E pode ser a última se eu não entregar essa porcaria a tempo.
- Você precisa se cuidar, irmão. Não posso me dedicar a você sempre que precisar. Tenho os meus compromissos, meu trabalho.
- Está esquecendo o que fiz por você? – O homem gordo infiltrava o passado constantemente, arrependido por ter dado a chance da sua vida ao irmão.
- Sabe que não se trata disso.
Os lábios do gorducho romperam num sorriso triste. Ele sabia que a relação que tinha com o irmão estava prestes a se perder, a dividir-se em caminhos completamente opostos. Um médico louvado e um marginal. Tudo podia ser diferente, caso houvesse uma segunda chance.
- Tenho que ir agora. – O gordo levantou lentamente da cadeira e retirou um papel amassado do bolso. – Fique com isso, vai lhe fazer lembrar o quanto te amo.
O doutor ficou novamente isolado nas últimas cadeiras. Desamassou cuidadosamente o papel que havia recebido do irmão e não ficou surpreso ao ver a foto da sua ex-mulher morta. Ele a havia matado. Pobre gordo infeliz. Cuidou de assumir a culpa pelo irmão e paga caro todos os dias por ter feito isso. O doutor olhou novamente as prostituTas à sua frente: mataria todas se isso pudesse refazer a vida do irmão. Um médico assassino e um marginal inocente. A vida é tão trágica quanto injusta.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poço fundo do amor


Estou vendo tudo ir embora,
mas ainda há desejos atrás da porta.
Vejo planos, pedidos e partidos,
mas, na real, nada disso importa.
Estou fora de mim agora.
Perdi toda e qualquer conexão com o mundo,
sou feliz aqui fora.
Estou longe desse triste poço fundo.
E nem sei quem sou,
mas sou feliz sem amor.
E justamente por não ter ninguém
que, aqui, busco um novo harém.
Meus guerreiros se foram com a guerra,
meus irmãos perderam-se no caminho de volta.
Qualquer ligação comum com a terra
faz de mim uma pessoa mais simples, menos composta.
Onde estão seus olhos Sr. amor?
Onde estão seus frutos Sra. liberdade?
Prometo não chorar com a chuva senhor.
Prometo não perder a vida, senhora, prometo ser verdade.
Estou aqui, porque não me busca?
Talvez esteja longe demais,
mas permaneço à sua escuta.
Eu quero o fogo que arde e não muda.
Eu quero o amor, eu quero a luta.

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