sexta-feira, 1 de outubro de 2010

[+] Conto: A loucura dos loucos que não enlouqueceram.

E eles começaram a sondar o próprio pé em busca de algum defeito, já que a perfeição aparentava ter lhes alcançado. Nenhuma unha encravada, nenhuma frieira, nenhum dedo torto. Chato! Era impossível encontrar alguma imperfeição em pés tão bem cuidados e desenhados como aqueles.
Sentaram os três na varanda.
Ficaram olhando-se fixamente como bobões que acabam de se conhecer, mesmo tendo anos de vivência e descoberto a perfeição somente agora. Demoraram tanto para perceber que eles eram perfeitos, que ainda estavam desacreditados disso. Sorriram um para o outro e tiveram aprovação unânime: era chegada a hora de contar isso a alguém, afinal, perfeição não pode ser guardada. Tem que ser exibida.
O primeiro, romântico, dirigiu-se a sala de recepção e piscou o olho para a moça que atendia telefonemas. Essa nem o notou. Ele foi insistente e piscou mais uma vez. Vendo que a mulher não lhe dava atenção, resolveu encontrar outra maneira para se mostrar visível: começou a correr na sala. Varreu os quatro cantos do cômodo de espera com seus pés agoniados.
- O que está fazendo? – Indagou a secretária.
O homem não respondeu, mas pulou de alegria interiormente. Finalmente conseguira chamar a atenção da mulher. Ela olhara para ele! Então a oportunidade foi bem aproveitada e ele encostou-se à bancada, olhando fixamente para ela. Agora sim piscou e foi visto. Os outros dois companheiros o acompanhavam de longe, apenas observando as atitudes do amigo.
- Tenho que lhe contar uma coisa.
- Então conte. – A mulher sorriu enquanto brincava com a caneta, menosprezando os ditos do pobre coitado.
- Quero lhe dizer que sou perfeito. – Sorriu abobalhado. – E posso casar com você agora. E juro, - ele cruzou os dedos e os beijou na frente da moça – juro que só vou me casar com você! Não caso com mais ninguém...
- Meu querido...
O rapaz reluzia e transparecia toda a felicidade que sentia somente por ser chamado de ‘meu querido’. Era um mérito enorme, mas ele queria mais. Ele podia ter mais: era perfeito. Sorriu novamente, pronto para receber uma resposta.
- Não posso me casar com você. – Ela segurou a mão do homem sobre a mesinha de recepção. – Já sou noiva, não se lembra?
Escuridão.
Agora nada reluzia e os sentimentos do homem eram os piores. Ele queria gritar, chorar e esbofetear a secretária. Ela não podia se casar com outra pessoa. Ela era dele e somente dele. Pensou mais um pouco. Talvez ela estivesse noiva forçadamente e talvez nem amasse o cara que havia lhe posto um anel no dedo. Era isso! Ela jamais recusaria um pedido de casamento do homem perfeito.
Certo disso, ele começou a gritar. Olhava incansavelmente para a mulher, suplicando que se casasse com ele, implorando um pouco de reciprocidade. Pulou sobre a mesinha, bateu no chão, bagunçou os cabelos... Ela aproveitara aquilo para continuar trabalhando, pois estava conversando ao telefone. E ele continuava gritando poemas de amor. Seus amigos já não o acompanhavam.
De repente, uma luz branca. Uma dor aguda no braço, algum líquido entrava em suas veias, ele podia sentir a pulsação mais forte. Era tranquilizante e ao mesmo tempo cansativo. Ele estava ficando sonolento demais. Não tinha mais forças, ainda assim, berrava consigo mesmo que já não precisava que ninguém lhe carregasse, queria andar sozinho. Tanto quis que fechou os olhos, mas os fechou sorrindo. Pois além da perfeição, ele havia encontrado o amor.

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